Fichamento do texto "Teoria do não-objeto", Ferreira Gullar
PRINCIPAIS PONTOS DO TEXTO
• O não-objeto não é o contrário de um objeto material, mas sim uma forma especial de objeto. Ele reúne percepção sensorial e conhecimento mental, sendo apreendido de forma imediata e total, como pura aparência.
• O autor apresenta um retrospecto histórico da arte, mostrando como, desde o Impressionismo até a abstração, o objeto foi perdendo importância:
1. Impressionismo: O movimento marca o início da crise da pintura figurativa. Monet e outros pintores passaram a enfatizar luz e cor, dissolvendo o objeto em manchas. A fidelidade deixou de ser à natureza em si e passou a ser à impressão do momento, ou seja, à percepção.
2. Maurice Denis: Sua frase (“um quadro é antes de tudo uma superfície plana coberta de cores...”) antecipa a abstração. O quadro passa a ser valorizado como objeto em si, e não apenas como representação.
3. Cubismo: O objeto é decomposto em cubos, perdendo forma natural e “opacidade”. Na fase sintética, é quase inteiramente consumido, restando pouco dele.
4. Mondrian e Malevitch: Representam a continuidade desse processo, buscando eliminar completamente o objeto.
• O autor nota que, apesar da tentativa de eliminar o objeto, os cubistas introduziram letras, números e materiais como areia e papel. Isso revela duas forças em conflito: uma que quer libertar a pintura de qualquer objeto e outra que reinsere signos e elementos concretos. O tachismo se liga a essa última tendência.
• Mondrian levou o Cubismo ao extremo: eliminou a figura, a cor e o espaço representativo, transformando a própria tela em objeto a ser organizado com linhas horizontais e verticais.
• A moldura perde seu sentido quando a pintura deixa de representar o mundo e se torna um objeto real em si mesma. Isso se reforça com os ready-mades de Duchamp, que inserem objetos comuns no espaço da arte. Porém, o autor observa que, nesse ponto, a arte corre o risco de ser “derrotada” pelo objeto comum, perdendo sua transcendência.
Por isso, critica artistas como Fontana e Burri: suas telas cortadas ou com materiais diversos seriam tentativas superficiais de trazer a realidade para a arte, mas acabam resultando apenas em objetos curiosos. Em contraste, a vanguarda russa (Tatlin, Rodchenko, Malevitch) foi mais profunda ao criar formas novas e expandir a arte para o espaço real.
• A escultura moderna passou por processo semelhante. Tatlin, Pevsner e Vantongerloo eliminaram figura, massa e até a base, propondo esculturas sem peso, pensadas no espaço. Assim, pintura e escultura se aproximaram tanto que as distinções tradicionais já não servem mais. Ambas caminham para se tornarem “não-objetos”.
• A eliminação da moldura na pintura e da base na escultura não é apenas detalhe técnico: é um passo essencial para que a obra se liberte das convenções e se torne um não-objeto. Por isso, movimentos como o tachismo são considerados conservadores pelo autor, continuam presos à moldura e aos limites tradicionais, mesmo que tragam materiais do mundo real. O verdadeiro avanço está em criar obras que existam fora de convenções, como “objetos especiais” que refundam o mundo.
• O que é um não-objeto?
O não-objeto se define em oposição ao objeto comum. Enquanto o objeto material é útil e nomeado (um lápis, uma pera, um sapato), o não-objeto não se reduz a uso ou designação. Ele não é um instrumento, mas uma presença que se dá diretamente à percepção.
• O que distingue o objeto do não-objeto?
O objeto comum possui opacidade: mesmo sem nome, continua sendo algo impenetrável, exterior ao sujeito. Ele é híbrido, composto de nome e matéria, e por isso nunca se revela por inteiro. Já o não-objeto é uno e íntegro, sem essa barreira. Sua forma é já a sua significação; sua aparência é tudo o que ele é.
• O texto explica que a arte é uma tentativa de superar a contradição entre o sujeito (consciente) e o objeto (opaco).
Um pintor de natureza-morta, por exemplo, não está apenas representando objetos: ele os eleva do nível conceitual (nome e uso) para um nível estético, onde a forma adquire uma nova significação. Esse é um caminho em direção ao não-objeto.
• Uma natureza-morta é um não-objeto?
Não. Ela é um quase-objeto: representação fictícia, a meio caminho entre o objeto real e o não-objeto.
• Que diferença existe entre a significação do quase-objeto e a do não-objeto?
No quase-objeto, a significação ainda está ligada ao objeto real que foi representado. No não-objeto, não há referência: ele cria sua própria significação, surgindo como apresentação inédita.
• Toda pintura não-figurativa é um não-objeto?
Não. A pintura abstrata difere da figurativa apenas em grau. Mesmo sem objeto visível, ainda se prende ao problema da representação. Mondrian e Malevitch, por exemplo, substituem objetos por formas geométricas, mas o espaço da tela continua metafórico, simbolizando o mundo. O não-objeto, ao contrário, é presentativo: existe diretamente no espaço real.
• O não-objeto resolve a contradição figura-fundo?
Sim, porque não trabalha com representação. O problema figura-fundo é insolúvel na percepção e limitou a arte abstrata. O não-objeto, inserido no espaço real, não tem figura sobre fundo fictício.
• O não-objeto existe no mesmo espaço que os objetos comuns?
Sim, mas com diferença essencial. Ele não apenas ocupa espaço como os objetos: ele nasce do próprio espaço e o transforma continuamente, refundando-o.
• Basta eliminar a moldura e a base para fazer um não-objeto?
Não. Não é só retirar suporte físico, mas enfrentar os novos problemas que surgem ao criar sem esses limites.
• O que significam a moldura e a base?
São sinais de que a obra ainda é representativa, mesmo abstrata. A moldura ou a base mantêm a obra numa posição privilegiada, separada do mundo. Se isso persiste, não é um não-objeto.
• O texto conclui que o não-objeto não é pintura nem escultura.
Ele é fundamentalmente não-representativo, superando os gêneros tradicionais. A arte moderna, para o autor, sempre foi “anti-arte”: uma busca pela experiência primeira do mundo. O não-objeto é o ápice dessa busca, pois não parte de uma linguagem anterior, mas surge como criação de uma nova significação.
• Como a poesia se encaixa na Teoria do Não-Objeto?
A poesia moderna passou por processo semelhante: rompeu formas fixas, depois o verso livre, até chegar à palavra em estado puro. O não-objeto verbal é o “antidicionário”: a palavra isolada, irradiando sentidos múltiplos, potencializada por elementos visuais.
• O não-objeto deve ter movimento?
Sim, geralmente envolve ação do espectador. A contemplação não basta. A obra precisa da participação do público para se atualizar. Assim, o espectador se torna parte da obra, que existe em potência e só se realiza plenamente no encontro com ele.


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